Uma redação feita em sala de aula pode ser mais do que uma atividade para avaliação. Quando o aluno encontra espaço para investigar, questionar, construir argumentos e desenvolver suas próprias ideias, a escrita passa a ser também uma forma de participar do mundo.
Foi esse o caminho percorrido pelo aluno João Takaes, da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Ser!. A partir de uma proposta de redação no modelo Fuvest, ele desenvolveu um texto que, posteriormente, foi adaptado e enviado à revista A Terra é Redonda, onde foi aprovado para publicação.
Convidamos o aluno a refletir sobre o processo que existe por trás dela: as experiências vividas ao longo de sua trajetória escolar, os professores que marcaram sua formação e a importância de uma educação que estimula o pensamento crítico, a autonomia e a construção de uma voz própria.
A seguir, ele compartilha esse olhar, sobre escrever, pensar e, sobretudo, sobre o papel da escola na formação de jovens capazes de construir e defender suas próprias ideias. Confira:

“Sou aluno desde o berçário, e sinto que sempre fui permeado de uma escola de docentes primorosos. Desde cedo, desenvolvi uma paixão pelas ciências humanas, seja pelo carisma de meus professores ou pela matéria viva que é estudar a sociedade. Falho por não poder lembrar todos os nomes, mas tenho caras memórias da grande maioria de meus tutores aqui.
Com a Naia, nos itinerários formativos, aprendi muito sobre a carreira que queria trilhar. Nas dinâmicas de classe, colhi amizades e interações muito importantes de discurso e pesquisa. Inteirei-me dos assuntos globais, e discuti profundamente tópicos vistos como banais. Dou totais créditos à ela e ao seu itinerário por minha escolha profissional, e agradeço imensamente a liberdade que ela deu em nossos – pois foram feitos em grupo – trabalhos finais sobre imperialismo e conservadorismo. Exercemos tarefas práticas, de recolhimento bibliográfico e até de entrevistas. Li bibliografias importantíssimas e tive contato com materiais que, sem esta dinâmica, eu não teria.
Ajudou-me muito em desestigmatizar a rigidez normativa da escrita científica, muito mais a estimulando. Mesmo com entraves e as pressões sociais de discutir assuntos polêmicos, dentro da sala de aula um grupo de adolescentes retomava sua capacidade social de pensar criticamente.
Ademais, acho que minhas escolhas acadêmicas estão relacionadas ao comportamento de meus professores. Com suas linhas de raciocínio contundentes e o engenho de suas práticas de forma dedicada, acho que há um forte estímulo para que o estudante passe a pensar “fora da caixa”(o que, em tempos contemporâneos, é a simples prática de pensar criticamente). Meu texto no A Terra é Redonda, na verdade, é uma simples evidência do processo educativo, da tarefa homérica imbuída em retomar a prática do pensamento. É um produto da educação, simplesmente.
O pensamento é naturalmente instalado em uma escola gratificada pela paixão do professor Emílio, que transcende à mera ingenuidade de proferir as formas estéticas acriticamente, optando por linhas de raciocínio caleidoscópicas e multidisciplinares, repletas de digressões críticas e com olhos marejados. Ou pelo Marcelo, com sua retórica impecável e suas narrativas sociais historicamente elucidativas. Ou pelo Nunes, que transformou a densidade da História Geral em uma educação cuidadosa, dinâmica, humorística, mas pontual e enfaticamente consciente. Pela naturalidade do professor Cris e do Igor, com o ensino carismático da geografia. Pelo Rogério, que mantém uma atualidade ímpar nas relações filosóficas. E, afinal, pela Lídia, que, em minha opinião, mantém uma paixão intensa por seu trabalho, esforçando-se em ser marcada pela contundência. Deixa florescer os raciocínios de cada um, repreende em falhas e valoriza o pensamento crítico como princípio último. Caracteriza-se por sua força multidisciplinar e por dar um ar renovado ao seu curso, deixando que a redação traga lembranças das aulas de literatura, história, filosofia, gramática e geografia(por vezes até literalmente, com seu projeto em parceria com seus colegas de trabalho). Com ela, aprendi a retirar o ar rígido de meu texto e priorizar o raciocínio ao simples uso parnasiano de palavras bonitas, ou de repertórios de bolso.
Para não estender-me mais, como não ser o pensamento crítico um produto de 16 anos de estudo em uma escola dedicada ao uso crítico das relações sociais e materiais? Escrevo menos por meu texto, e mais como um agradecimento à dedicação e à responsabilidade tão bem utilizada de um corpo docente tão plural, atual e libertário.
Sinto que isso tudo contribui para que o aluno possa ser um cidadão mais consciente política, social e ideologicamente. Em um ano tão rodeado por vestibulares, exercer a prática de tomar as rédeas de sua própria opinião é um ato de cidadania pois, além de abrir portas acadêmicas, propicia um engajamento nos assuntos mais simples, como manifestar-se numa discussão entre amigos.
Por outro lado, nos mais complexos, como engajamento democrático, lutas sociais e defesa de direitos. Mesmo que em sua pluralidade de opiniões, um cidadão deve sempre estudar as convenções sociais de forma crítica, nunca imaginativa, ideológica, ingênua ou superficial. E isto inicia com o olhar atento do aluno ao raciocínio que seu professor discursa, bem como na mera escolha do profissional que o faz – o que fica a cargo da coordenação. Além do mais, como indivíduos próximos à vida adulta, pensar por si é um ato de inserção em uma sociedade não mais acobertada pelo conforto da adolescência domesticada – o que, sem o devido esclarecimento, pode levar a choques intensos. E talvez seja isso o que a juventude do século XXI mais precise.”